domingo, 6 de outubro de 2013

Desaceleração econômica: a China na tormenta?

Medido pela taxa de câmbio atual, o Produto Interno Bruto (PIB) por pessoa da China foi multiplicado por um pouco mais de 22 vezes entre 1980 e 2011, passando assim de 220 dólares em 1980 para 4.930 dólares em 2011. Considerando a taxa que mede o poder de compra, ele foi multiplicado por 33. Graças a um crescimento muito elevado, durável e pouco volátil, a queda da pobreza é impressionante. No entanto, o aumento muito rápido das desigualdades de renda neutralizaram parcialmente os efeitos positivos da alta taxa de crescimento sobre a redução da pobreza, que prosseguem, mas a um ritmo mais lento.

A contribuição da China para o crescimento mundial é, há vários anos, determinante. O desaquecimento atual de seu crescimento é preocupante em um duplo sentido : traz consequencias sobre o crescimento das outras economias emergentes e das economias avançadas, e, em segundo lugar, é provável que não possa ser controlado.

I. A originalidade do modelo chinês
A originalidade do modelo chinês reside em sua capacidade de casar água e fogo : o mercado e o socialismo. O setor privado se desenvolveu fortemente. Não há limite às atividades das empresas multinacionais. E o setor público é muito importante. A sua modernização é financiada por créditos a taxas de juros bastante reduzidas, liberando-o a praticar uma 'repressão financeira' face ao setor privado, uma vez que este é obrigado a tomar empréstimos a taxas de juros mais altas. As empresas públicas se beneficiam de consequentes subvenções. Protegidas por medidas administrativas e pela manutenção de uma taxa de câmbio desvalorizada, os preços dos produtos manufaturados são cada vez mais livres.

A liberalização é, contudo, menos importante para os bens intermediários que se beneficiam de numerosos subsídios. Ela é restrita aos fatores de produção, especialmente no que concerne às matérias primas, às condições de empréstimo e de trabalho, cujos preços são mantidos em um nível baixo.

Enfim, a China pode ser caracterizada pelas facilidades concedidas às empresas estrangeiras – com o objetivo de se apropriar das tecnologias mais recentes -, por um certo protecionismo, via a manutenção de uma taxa de câmbio depreciada e a exclusão de facto das empresas estrangeiras dos processos de compras públicas.

A originalidade desse modelo se funda :

Sobre a articulação das forças sociais sob a égide do Partido Comunista : empreendedores dos setores públicos e privados pertencem frequentemente ao PC ; mundo do trabalho com suas diferenciações cada vez mais fortes entre campo e cidade, trabalhadores qualificados e não qualificados, trabalhadores residentes e trabalhadores migrantes das zonas rurais (« mingongs ») sem permissão se beneficiam muto pouco de vantagens sociais. Estes últimos, muito numerosos (cerca de 260 milhões), estão concentrados nos empregos não qualificados e particularmente duros.

- Sobre a capacidade do Estado central em manter um controle sobre os governos das províncias e sobre a concentração política e a manutenção de uma autonomia muito relativa face ao poder central.

- Sobre um crescimento elevado de maneira a legitimar a manutenção de um regime autoritário, apesar da distribuição particularmente desigual dos frutos desse crescimento e o aumento da corrupção.

A intervenção massiva do Estado, em geral indireta, a vulnerabilidade dos empreendedores privados e públicos, a corrupção, a superexploração dos trabalhadores, especialmente dos « ilegais », são particularidades desse modelo [1]. Na verdade, estamos diante de um duplo processo de acumulação primitiva, o primeiro, no sentido de Marx com o afluxo de camponeses pobres nas cidades, e o segundo mais complexo com a espoliação dos poupadores por taxas de juros muito pequenas, e mesmo negativas, e a disponibilidade de crédito a baixas taxas de juros para empresas selecionadas, públicas e privadas.

II. Um conjunto de fatores desfavoráveis joga em favor de uma desaceleração mais pronunciada da atividade econômica
1 – As perspectivas de forte crescimento das exportações são menos favoráveis do que já foram, ainda mais que é cada vez mais difícil passar de uma especialização baseada na exportação de produtos com baixa intensidade tecnológica para exportações de produtos mais sofisticados, com maior valor agregado. Essa transição encontra dois obstáculos dificilmente superáveis : com a globalização, é mais difícil se opor à explosão internacional da cadeia de valor ; a ausência de controle das novas tecnologias, especialmente aquelas ligadas à telecomunicação e à informação (ITC), e de domínio dessas tecnologias tornam mais difíceis, embora não impossíveis, as estratégias nacionais de crescimento das exportações e de integração das linhas de produção.

2 – Passar de um modelo de desenvolvimento a outro a partir da dinâmica do mercado interno não é fácil, apesar da expansão das classes médias. Os salários cresceram em média mais rapidamente que a produtividade do trabalho desde 2009, mas a parte do consumo no PIB e sua contribuição para o crescimento cresceram ainda de forma muito fraca. O aumento dos custos do trabalho, seguido ao das receitas, com uma taxa de crescimento da produtividade do trabalho dada, diminui a competitividade das empresas que utilizam muita mão de obra. Além disso, a expansão do consumo pode vir de uma diminuição da poupança. A poupança importante das famílias – explicada por comportamentos de precaução, ligados aos custos da saúde, da educação, às pensões insuficientes [2], às incertezas sobre o emprego – pode diminuir se houver mecanismos de socialização mais importantes necessitando uma alta sensível das despesas sociais do Estado.

3 – Uma grande parte dos investimentos é dirigida para a construção de infraestruturas importantes. Trata-se de um pré-requisito para um crescimento durável e sua insuficiência explica as dificuldades de manter uma taxa de crescimento consequente tanto no Brasil como na índia. Mas na China esses investimentos estão, em grande parte, na origem da multiplicação de créditos duvidosos, fragilizando os bancos. A priori, poderia-se considerar que o risco financeiro e bancário ainda não é muito elevado na China, apesar desses créditos duvidosos. O volume de créditos em relação ao PIN alcançou 154% em 2012, uma cifra menor do que a que apresentava os Estados Unidos na véspera da crise de 2007 (224%), ou do que a que tinha o Japão antes de suas dificuldades em 1989 (239%).

É preciso levar em conta ainda os produtos financeiros complexos, ou seja, o conjunto das « shadow banking activities » realizadas pelas instituições financeiras, muito pouco controladas pelas autoridades monetárias, e suas relações no sistema bancário. Essas atividades cresceram cerca de 62% entre 2008 e 2012 e, se as levarmos em conta, a relação do conjunto dos créditos passa de 145%, em 2008, para 207%, em 2012, segundo dados da agência Nomura. O risco de uma crise financeira capaz de provocar uma «aterrissagem forçada » é, portanto, mais elevado do que parece quando levamos em conta as atividades envolvendo esses produtos complexos.

4 – As taxas de investimento muito elevadas (43,5% em 2010) acarretam custos adicionais provenientes das capacidade de produção ociosas importantes. Com tais taxas, a eficácia do capital tende a cair, sobretuso nas empresas do Estado e no setor imobiliário fragilizado pelo estouro possível de uma bolha especulativa.

5 – O controle dos conflitos sociais e a manutenção da supremacia do Partido Comunista chinês é tanto mais problemática na medida em que a opacidade das decisões governamentais é grande e a corrupção em todos os níveis é importante.

As consequências de uma desaceleração da atividade econômica sobre os preços internacionais de matérias primas e os volumes de comércio já começam a ser sentidas pelas economias emergentes latinoamericanas e por numerosas economias africanas. Se o crescimento da China cair fortemente, as consequências econômicas para esses países, assim como para os países avançados, serão ainda mais importantes, o que reduziria o crescimento das exportações da China.

Conclusão
Mais do que uma « aterrissagem forçada », são os problemas sociais, alimentados pela redução do crescimento, que ameaçam a manutenção do regime político. Sem poder assegurar um processo de aumento forte de renda e de deiminuir as desigualdades de renda, o governo busca prevenir os problemas sociais cogitando ceder sobre algumas questões qualitativas : reconhecimento do direito de propriedade de camponeses, reconhecimento do fundamento de algumas reivindicações dos trabalhadores, implementação de um sistema de seguridade social, proteção do meio ambiente fortemente degradado, e, enfim, « luta » contra a corrupção atingindo o pessoal político e os quadros de empresas em todos os níveis.

Para os economistas e estudiosos da política chinesa, o regime autoritário não se funda sobre uma legitimidade ideológica, mas sobre sua eficácia. Lembremos então das palavras de Deng Xiao Ping : « pouco importo a cor do gato desde que ele cace o rato ». Com o desaquecimento do crescimento e a multiplicação dos conflitos do trabalho, cada vez menos controlados, e das lutas dos camponeses pelos seus direitos, é possível que no futuro seja cada vez mais difícil « pegar o rato ».

(*) "Professor Emérito - Universidade Paris Norte e economista do CNRS". Página do autor.

Notas
[1] No entanto, os salários aumentaram fortemente nos últimos anos na China. Segundo a OIT (2012, p.25), a taxa de crescimento médio anual dos salários foi de 13% entre 1997 e 2007 e de 11% entre 2008 e 2011, enquanto a taxa de crescimento médio da produtividade foi de 9% e de 8,5% nos mesmos períodos. As desigualdades salariais aumentaram, os salários dos trabalhadores não qualificados e mais particularmente os dos migrantes « ilegais » cresceram menos rápido que a taxa de crescimento da economia, sendo que a reserva de mão de obra não é ilimitada.

[2] Lembremos que a relação de dependência cresce fortemente por causa do aumento da expectativa de vida e da política de filho único.

Referências bibliográficas : em francês: Aglietta M., Bai G. (2012) : La voie chinoise, capitalisme et empire, Odile Jacob ; Bergère M.C. (2013) : Chine, le nouveau capitalisme d’Etat, Fayard ; Araujo H. et Cardenal J.P. (2013) : Le siècle de la Chine : comment Pékin refait le monde à son image, Flammarion ; Salama P (2012) : Les économies émergentes latino-américaines, entre cigales et fourmis (six chapitres sur huit analysent le modèle chinois en le comparant aux modèles latino-américains), Armand Colin.

Em inglês : Borst N. (2003): “Shadow deposit as a source of financial instability: lessons from the american experience for China”, Peterson Institute (1-12); Walter A., Zhiang X. (2012): East Asian Capitalism, Diversity, Continuity and Change, Oxford; Zhuang I., Vandenberg P. et Huang Y. (oct 2012): Growing beyond the Low-cost Advantage, Asian Development Bank; Yifu Lin (2011): Demystifing the chinese economy, Cambridge; Yueh L (2013): China’s growth: the making of an economic superpower, Oxford.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Um dia após ser detido, Batman volta às ruas para apoiar professores no RJ





Fantasiados homem posam para foto juntos durante protesto de professores da rede municipal em frente a Câmara  (Foto: Domingos Peixoto / Agência o Globo)Menos de 24 horas após ser detido em manifestação no Rio, um homem vestido de Batman voltou às ruas do Rio. Eron Moraes de Melo, de 32 anos, compareceu, na manhã desta quinta-feira (26), ao protesto dos professores da rede pública de ensino do Rio na Cinelândia, no Centro do Rio. Desta vez, ele foi acompanhado de mais dois "personagens", Saci-Pererê e Jack Sparrow.


"Sou um mascarado do bem. O povo tem que vir para a rua e lutar pelos seus direitos. Não podemos ser lesados pelos governantes e precisamos mudar o que não está bonito no nosso país. Já participei de 10 manifestações e vou garantir a minha presença em quantas mais forem necessárias", declarou o "homem-morcego", que quando não está com a capa preta, trabalha como protético.
Fazer protesto em Facebook e Twitter é que nem ser rico no banco imobiliário"
Eron Moraes, o 'Batman'
Durante um ato nacional pela liberdade dos presos políticos e contra o terrorismo de estado em frente à sede do Ministério Público, na quarta-feira (25), Eron chegou a ser detido pela polícia após se negar a retirar a máscara.

"Eu já fui preparado. Não podem proibir as máscaras. Estou aqui para combater a corrupção, a injustiça e tudo que houver de errado no nosso país. Vamos lutar pela educação, saúde e por uma política mais limpa. Vamos em frente”, disse o Batman, que se veste como o "homem morcego" desde o dia 20 de julho.

Eron já imaginava a repercussão que sair vestido de super-herói nas ruas causaria. Segundo ele, tudo foi planejado.

"Um indivíduo fantasiado de Batman vai chamar atenção querendo ou não. Se eu fosse como Eron para as ruas eu seria apenas mais um. Chama atenção mesmo, e é para chamar. A mensagem é: vamos lutar contra a corrupção. Fazer protesto em Facebook e Twitter é que nem ser rico no banco imobiliário", concluiu.

Ibope: hoje Dilma seria eleita no primeiro turno

Uma pesquisa realizada pelo Ibope e pelo jornal O Estado de S.Paulo indica que, no cenário mais provável das eleições presidenciais de 2014, a presidenta Dilma Rousseff seria reeleita em primeiro turno. De acordo com o levantamento, Dilma tem hoje uma intenção de voto superior à soma das intenções de seus três adversários.
Segundo os números, Dilma passou de 30% de intenções de voto em julho para 38% em setembro, enquanto a ex-senadora Marina Silva (que tenta fundar o partido Rede Sustentabilidade) caiu de 22% para 16%. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) oscilou de 13% para 11% e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), de 5% para 4%. Neste cenário, Dilma tem 38% dos votos, contra 31% de Marina, Aécio e Campos, mas quase um terço dos eleitores (31%) dizem não ter candidato.
Quando o candidato do PSDB é o ex-governador de São Paulo José Serra, a vantagem de Dilma sobre seus rivais é de 37% a 32%. Neste cenário, Dilma tem 37%, contra 16% de Marina, 12% de Serra e 4% de Eduardo Campos.
Segundo turno
Dilma também avançou nas pesquisas para o segundo turno. Em julho, segundo o Ibope, Dilma e Marina estavam praticamente empatadas, com 35% para a presidenta e 34% para a ex-senadora. Agora, Dilma foi a 43%, enquanto Marina caiu para 26%. Contra os tucanos Aécio Neves e José Serra, Dilma venceria no segundo turno por 45% a 21%. Contra Eduardo Campos, a vitória se daria por 46% a 14%.
O Ibope entrevistou 2002 pessoas entre 12 e 16 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Crack: pesquisa da Fiocruz tem uma novava realidade.

crack


Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz sobre o perfil dos usuários de crack no Brasil, traz dados que comprovam que as propostas constantes no projeto de lei que tramita no Senado Federal (PLC 37/2013) e que modifica atual Lei de Drogas (11.343), não têm embasamento científico e não correspondem à realidade brasileira.

O trabalho, “Perfil dos Usuários de Crack e/ou Similares no Brasil”, coordenado pelo pesquisador Francisco Inácio Bastos, traz evidências que podem ajudar o Brasil a tratar a questão do crack de forma mais objetiva e consistente e com respeito aos direitos humanos.
O levantamento demonstrou, por exemplo, que a grande maioria (78,9%) dos usuários de crack deseja receber tratamento – o maior problema seria o baixo acesso aos serviços disponíveis – sendo desnecessária, portanto, a ênfase na internação involuntária, proposta no texto do PLC 37 como base para o atendimento de dependentes de drogas.
Outro dado encontrado na pesquisa, que entrevistou cerca de 25 mil pessoas nas capitais e regiões metropolitanas de todo o país, é que o universo de usuários de crack é de 370 mil pessoas e não 1,2 milhão, número que serviu de base para as ações do programa “Crack, é possível vencer”, do governo federal. Segundo o levantamento, esse número se aproxima, na verdade, do número total de usuários de drogas ilícitas em todo o país, com exceção da maconha, e não somente de crack.
Ao contrário de outras pesquisas, que utilizaram o método de entrevistas domiciliares, o levantamento feito pela Fiocruz realizou também entrevistas na cena de consumo, ou seja, as ruas. Segundo Francisco Inácio Bastos, o método tradicional não permite a identificação dos usuários de crack, pois eles estão nas ruas. “Para ter acesso a essas pessoas, então, é preciso ir em busca de suas redes de contatos”, afirma.
Os achados deste levantamento também mostram que o ambiente familiar violento e a falta de perspectivas já estavam presentes na vidas dessas pessoas antes do uso do crack. Quase 30%, por exemplo, relataram que problemas familiares ou perdas afetivas foram a principal motivação para usar crack e 44,5% das mulheres entrevistadas relataram já terem sofrido violência sexual na vida.
Outro dado importante encontrado nas entrevistas é que mais de um terço dos usuários entrevistados admitiu não fazer uso de preservativo nas relações sexuais e mais da metade (53,9%) nunca havia feito um teste de HIV. De acordo com a pesquisa, a contaminação pelo vírus HIV entre os usuários de crack é oito vezes maior do que na população em geral (5% contra 0,6%).
Além disso, mais de 70% dos usuários de crack entrevistados disseram que compartilham cachimbos e latas, o que aumenta o risco de transmissões doenças como a hepatite. Oito por cento disseram ter tido episódios de overdose nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Esses achados mostram que a estratégia de combate ao crack deve se basear em um atendimento pragmático que privilegie a redução de danos e seja extensiva a outras drogas: de acordo com o levantamento, os usuários de crack usam também outras drogas sendo o álcool e o tabaco, drogas lícitas, as mais comuns (80%), o que demonstra a necessidade de se formular políticas públicas para todas as drogas.
Além disso, o modelo de atendimento precisa ter ênfase comunitária, com a ampliação e fortalecimento dos Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras drogas (Caps-AD), dos consultórios de rua e dos agentes de saúde.
A pesquisa também revelou a importância de tornar o atendimento a dependentes mais humanizado com a oferta de serviços associados à assistência social como local para higiene, distribuição de alimentos, apoio para conseguir emprego, escola ou curso e atividades de lazer. Esses aspectos foram citados por mais de 90% dos entrevistados como fundamentais para facilitar o acesso e o uso de serviços de atenção e tratamento.
Os dados da pesquisa reforçam a necessidade de se investir em estratégias de redução de danos, que são amplamente utilizadas em outros países, por serem eficientes na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids, e outras doenças como a hepatite e tuberculose. Dessa forma, ambientes seguros para uso da droga, como as salas de consumo existentes na Europa, precisam ser considerados.
O PLC 37 não menciona essas estratégias e tem como única métrica de sucesso a abstinência, o que não condiz com a realidade da dependência. Projetos como o do deputado Osmar Terra criminalizam ainda mais uma população já excluída e desassistida pelo Estado.

Revide soberano

obamaA prepotência é própria dos impérios, desfaçatez e hipocrisia também. Se me ocorrem os Estados Unidos, me vêm à mente os pais fundadores e sua Constituição pioneira, Lincoln, Roosevelt, Martin Luther King. E logo sobrevêm invasões e guerras, destruição e morte em nome dos interesses imperiais. A Doutrina Monroe e a inquisição macarthista. Hiroshima e Nagasaki. O ataque à Baía dos Porcos, Granada, Panamá, os golpes latino-americanos, em primeiro lugar o nosso, de 1964. A CIA, a DEA. Abu Ghraib e Guantánamo. O diabo a quatro, sem contar os barões ladrões e os inventores do neoliberalismo. Etc. etc.
É um nunca acabar de desmandos e violência, de opressão e crimes contra a humanidade, perpetrados à sombra da pretensa bandeira da liberdade e da democracia, como se os EUA fossem avalistas da boa conduta do mundo. Não há novidade neste comportamento, os impérios anteriores ao americano agiram da mesma maneira, e alguns duraram séculos e séculos. Não parece ser este o destino de Tio Sam, de sorte que não falta quem lhe puxe a barbicha.
O Brasil figurou, com o destaque devido à sua potencialidade e ao seu tamanho, no quintal dos Estados Unidos, ou seja, a América Latina em bloco. Assim foi desde que os ingleses deixaram de dar as cartas a cavaleiro dos séculos XIX e XX. Dispenso maiores comentários sobre a participação americana no golpe que derrubou Jango Goulart democraticamente eleito e o papel que no episódio desempenharam a CIA e o embaixador Lincoln Gordon.
Os governos pós-ditadura foram súcubos das imposições do “grande irmão do Norte”, política e economicamente, e neste campo o FMI deitou e rolou. Houve o estertor da moratória de 1987, mal administrada ao sabor das veleidades sarneysistas, e, ao cabo, a subserviência do governo de Fernando Henrique, que tanto apreciava cair nos braços de Bill Clinton e chegou a sonhar com a privatização da Petrobras. Até agora FHC, com imbatível candura, diz desconhecer qualquer gênero de espionagem americana no Brasil.

Tudo muda com o governo Lula, por meio de uma política exterior independente, conduzida pelo chanceler Celso Amorim, capaz de se evadir da rede ardilosa do chamado “Consenso de Washington” e de tomar rumos próprios. A linha é clara, altiva na medida certa e sempre elegante. Uma aula de diplomacia sutil e eficaz. Em quadrantes diversos, Lula não se alinha às conveniências americanas, quando não simplesmente as transpõe, para os habituais desconforto e repulsa da mídia nativa.
Com a chegada de Dilma Rousseff à Presidência, a política exterior passa por uma fase menos nítida, diria mesmo morna. Alcançamos os dias de hoje. Prepara-se uma viagem da presidenta a Washington, em visita oficial e solene. E então, revelada a espionagem americana nas entranhas governistas ao ponto de monitorar os movimentos da própria Dilma, o encontro com Obama é sumariamente cancelado.
Tão ofensiva à soberania brasileira foi a operação, que a mídia nativa se viu forçada a cons
iderar devida a reação do governo. Mesmo assim, cuidou de minimizar a atitude presidencial, enquanto destacava a observação de Aécio Neves, de que aquela não passa de marketing político. Aécio faz sua lição de casa. É óbvio, no entanto, que ações de forte repercussão popular aproveitam politicamente a quem as realiza.
Resta a verdade factual, como de hábito omitida, ou desprezada, pelos editorialistas midiáticos. Quanto ao leitor atento, não se deixe enganar pela ideia de que a decisão de Dilma teve, de alguma forma, o beneplácito de Washington, a ponto de provocar a publicação de comunicados conjuntos. De fato, ambos coincidem no anúncio do cancelamento da visita, diferem, porém, na essência.
Até o mundo mineral percebe que para Tio Sam a questão precipita um revés político diante do país mais importante do quintal de um antanho superado. E tem mais, muito mais, o malogro de transação comercial pouco inferior a 10 bilhões de dólares, pela qual o Brasil adquiriria os caças da Boeing que o balconista Obama esperava vender à visitante brasileira em lugar dos Dassault negociados há tempo.
Uma personalidade brasileira voltada aos interesses do País recentemente me dizia: “Não quero entrar no mérito da qualidade dos dois caças, mas é bom que os Estados Unidos não mandem por aqui”.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O ‘não’ de Dilma a Obama

Não há antecedentes de que um convidado suspendesse uma “visita de Estado”, e ao fazê-lo a presidenta do Brasil mostra a gravidade da situação. A Casa Branca insinuou que manterá o sistema de vigilância apesar do escândalo.

A única concessão de Rousseff foi aceitar que se divulgasse que a decisão foi adotada juntamente com Obama.

Sem surpreender ninguém, a presidenta Dilma Rousseff anunciou formalmente ontem que suspendeu a visita de Estado que realizaria a Washington no final de outubro. Claro que, na formalidade, houve que incluir certas mesuras diplomáticas. Assim, oficialmente a visita não foi suspensa, mas postergada, e não se tratou de uma decisão de Brasília, mas da conclusão a qual chegaram, em comum acordo, Dilma e seu frustrado anfitrião, Barack Obama, em uma ligação telefônica na tarde da segunda-feira.

Como em toda mentira, há, nessa, algo de verdade. Solícito, Barack Obama efetivamente ligou para Dilma no entardecer de segunda-feira. Lançou um chamamento para que a visita não fosse cancelada. A mandatária brasileira, em todo caso, se mostrou inflexível: sem que se esclarecesse a questão da espionagem que alcançou seus telefones (fixos e móveis, institucionais e pessoais) e seus correios eletrônicos, sem a garantia de que essa espionagem seria suspensa de imediato, sem um pedido público de desculpas, não havia clima algum para a visita. Quando se diz que ao anunciar que a viagem estava cancelada Dilma não surpreendeu ninguém, isso inclui Obama.

Haverá novas medidas, que respondem não só à irritação pessoal da presidenta brasileira, mas também à gravidade do acontecido. Na nota em que se anuncia a suspensão da visita de Estado, fica dito que “as práticas ilegais de interceptação das comunicações e os dados de cidadãos, empresas e membros do governo brasileiro constituem um fato grave, atentatório à soberania nacional e aos direitos individuais, e incompatível com a convivência democrática entre países amigos”. Mais claro, impossível.

Desde que explodiu o escândalo e ficou patente o mal-estar brasileiro, a Casa Branca tratou de matizar o tema. Mas ao mesmo tempo, e em uma atitude insólita, Washington insinuou, sem explicitar, que manterá o sistema de espionagem, como se fosse algo natural. Ontem, em sua nota anunciando a “postergação” da visita, a Casa Branca disse que Obama procurará “um caminho diplomático”, juntamente com Dilma, “para solucionar o incômodo mal-estar provocado na relação bilateral”.

Há um detalhe importante nesta história. De acordo com a hierarquia do cerimonial da Casa Branca, uma coisa é uma visita oficial – Dilma já realizou uma, Lula fez várias – e outra, muito mais categorizada, é uma “visita de Estado”. O mais visível dessa hierarquia é que uma “visita de Estado” inclui uma janta de gala na Casa Branca e uma cerimônia militar de recepção ao visitante. O último presidente brasileiro a ser agraciado com esta honra foi Fernando Henrique Cardoso, há quase vinte anos. Dilma seria a única “visita de Estado” prevista para 2013.

Não há antecedentes de um convidado que tenha suspendido esse tipo de viagem. Por mais que se trate de filigranas diplomáticas, a medida da presidenta brasileira mostra a gravidade da situação.

Não se trata, nem de longe, de uma decisão intempestiva, nascida sobre a base de um humor de momento. Foi uma resposta meticulosamente estudada e debatida com a cúpula da diplomacia brasileira e com o mais restrito círculo de assessores e conselheiros de Dilma Rousseff. O próprio Lula, que em um primeiro momento se mostrou mais inclinado a uma posição dura, mas não extrema, respaldou a decisão de suspender a viagem.

É, em suma, um gesto contundente. A única concessão de Brasília foi aceitar que se divulgasse que a decisão foi adotada juntamente com Barack Obama e que, em lugar de uma suspensão, se trata de uma postergação.

Os Estados Unidos continuam sendo o principal sócio comercial do Brasil. Pode ser que a decisão de Dilma provoque críticas por parte do empresariado brasileiro. Entretanto, cancelar a viagem não trará nenhuma consequência negativa. Na agenda da visita de Estado não havia nada específico ou relevante. Ninguém esperava algum anúncio significativo no campo dos investimentos, ou de novos acordos tarifários, e menos ainda alguma novidade no vasto campo da cooperação bilateral.

Estaria, claro, o peso simbólico da visita e talvez algum sinal de que, como sobremesa à ceia de gala, surgissem indicativos de avanços em questões pendentes entre os dois países, muito especificamente em aspectos do comércio bilateral. Nada, em todo caso, que não possa continuar sendo negociado e discutido pelas vias naturais da diplomacia.

Uma visita de Estado seria, principalmente, um gesto político de ambos os governos. Dilma concluiu que não é o momento apropriado.

Ao contrário: muito mais positivo seria outro gesto político, ou seja, dizer a Washington que para tudo existe algum limite nesta vida e neste mundo.

Que ninguém se surpreenda se em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, daqui a poucos dias, Dilma volte ao tema para criticar muito duramente as ações invasivas da Casa Branca. O tema não está fechado com a suspensão da visita.

Tradução: Liborio Júnior

Eduardo Campos põe seu bloco na rua

Brasília - O PSB abandonou o Governo Dilma. Entregou seus cargos, que incluem o Ministério da Integração Nacional e a Secretaria dos Portos, além de diretorias na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), e as presidências da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

A candidatura de Campos é um assunto, segundo ele mesmo gosta de dizer, que só deve ser discutido no ano que vem. Como se vê, 2014 já começou para Campos faz tempo e só ele ainda não percebeu.

O que pretende o PSB? O plano A é o seguinte: o partido sai do governo DIlma, deixa sua bancada livre para atirar no Congresso, parte em busca de apoios a torto, a direito e à direita nos estados, lança seu candidato, vai para o segundo turno e se conforma como a candidatura anti-Dilma e anti-PT, com o apoio de Marina, Aécio e outros (Serra, por exemplo?). Caso isso não aconteça, entra em ação o plano B: Campos tenta pelo menos uma votação superior a 10%, ajuda a provocar um segundo turno, analisa as chances de cada candidatura, negocia seu apoio em troca de um bom peso no futuro governo e se prepara para 2018.

As dificuldades que terá no caminho são muitas. Ter mais que 10% em uma eleição presidencial não é trivial. Superar Dilma, mesmo no Nordeste, com Lula no palanque adversário, é tarefa árdua e inglória. Sua base de candidatos pode cristianizá-lo já no primeiro turno. Havendo segundo turno, nada garante que seus votos de primeiro turno migrem para seu candidato preferencial.

Para Campos, se houver um segundo turno e ele estiver de fora, o melhor candidato para a sua escolha será aquele que estiver na frente, seja ele quem for. Por isso ele guarda certa distância, mas mantém relações minimamente cordiais com todos: Dilma, Aécio e Marina. Qualquer um dos três pode ganhar seu apoio.

Sua disputa é em dois tempos. Até julho do ano que vem, sua adversária preferencial é Dilma. Ele precisa bater em Dilma para ajudar a provocar um segundo turno. Essa é sua preliminar. Para tanto, precisa puxar os votos dos insatisfeitos com os governos do PT, todos eles. De julho em diante, precisará escolher em quem bater, entre Aécio e Marina, para subir acima dos 10%. Terá que jogar um desses dois para baixo. Invertendo o foco de seus ataques, pode se reposicionar para aliar-se novamente a Dilma em um eventual segundo turno e entrar, em seu possível segundo mandato, pisando sobre o tapete vermelho.

Enquanto isso, precisa rapidamente montar palanques em todos os estados. Aí, a busca por insatisfeitos se aproveita de rachas regionais na oposição. Campos foi a Santa Catarina porque ouviu que Jorge Borhnausen e seu filho, o deputado federal Paulo Bornhausen, estavam insatisfeitos com os rumos do governo de Raimundo Colombo. O velho patriarca dos Bornhausen, que presidiu o PFL e depois o DEM, ajudou a fundar o atual PSD. Mas, quando o PSD nacional se aproximou do governo Dilma, os Bornhausen se aproximaram de Campos. O namoro terminou em casamento, no final de agosto, com a filiação de Paulo Bornhausen.

Em Goiás, o DEM, chefiado pelo ruralista Ronaldo Caiado e rachado com o PSDB, já sinalizou apoio a Campos. A tendência do PSB é exatamente essa. Onde houver insatisfeitos, o partido levará seu ombro amigo e uma ficha de filiação ou uma proposta de coligação.

A partir de agora, começa, em todo o país, uma espécie de efeito dominó da decisão nacional do PSB de abandonar governos do PT. Os diretórios irão reavaliar sua participação nesses governos e buscar uma recomposição de forças estaduais com vistas às eleições de 2014. Devem partir também para cima de setores desgarrados do PMDB.

O líder do partido no Congresso, deputado Beto Albuquerque, recomendou que o PT faça o mesmo: desocupe os cargos nos governos do PSB. Até porque eles agora precisam de vagas para alojar seu dirigentes que sairão do Governo Federal.

Aliado histórico do PT na maioria das eleições presidenciais e em vários governos estaduais, o PSB pela segunda vez alça voo solo (a primeira foi em 2002, com Anthony Garotinho). Se Campos pode se tornar um problema para Dilma, arrisca a ser um pesadelo para Aécio e o PSDB. Tende a roubar votos preciosos dos tucanos entre o eleitorado que rejeita o PT. E pode garfar o apoio de uma parcela importante do empresariado, desfalcando o caixa da campanha de Aécio. São dois ingredientes que, para o PSDB, podem significar um caixão e uma vela preta.

*Antonio Lassance é doutor em ciência política pela UnB.