Medido pela taxa de câmbio atual, o Produto Interno Bruto (PIB) por
pessoa da China foi multiplicado por um pouco mais de 22 vezes entre
1980 e 2011, passando assim de 220 dólares em 1980 para 4.930 dólares em
2011. Considerando a taxa que mede o poder de compra, ele foi
multiplicado por 33. Graças a um crescimento muito elevado, durável e
pouco volátil, a queda da pobreza é impressionante. No entanto, o
aumento muito rápido das desigualdades de renda neutralizaram
parcialmente os efeitos positivos da alta taxa de crescimento sobre a
redução da pobreza, que prosseguem, mas a um ritmo mais lento.
A
contribuição da China para o crescimento mundial é, há vários anos,
determinante. O desaquecimento atual de seu crescimento é preocupante em
um duplo sentido : traz consequencias sobre o crescimento das outras
economias emergentes e das economias avançadas, e, em segundo lugar, é
provável que não possa ser controlado.
I. A originalidade do modelo chinês
A
originalidade do modelo chinês reside em sua capacidade de casar água e
fogo : o mercado e o socialismo. O setor privado se desenvolveu
fortemente. Não há limite às atividades das empresas multinacionais. E o
setor público é muito importante. A sua modernização é financiada por
créditos a taxas de juros bastante reduzidas, liberando-o a praticar uma
'repressão financeira' face ao setor privado, uma vez que este é
obrigado a tomar empréstimos a taxas de juros mais altas. As empresas
públicas se beneficiam de consequentes subvenções. Protegidas por
medidas administrativas e pela manutenção de uma taxa de câmbio
desvalorizada, os preços dos produtos manufaturados são cada vez mais
livres.
A liberalização é, contudo, menos importante para os
bens intermediários que se beneficiam de numerosos subsídios. Ela é
restrita aos fatores de produção, especialmente no que concerne às
matérias primas, às condições de empréstimo e de trabalho, cujos preços
são mantidos em um nível baixo.
Enfim, a China pode ser
caracterizada pelas facilidades concedidas às empresas estrangeiras –
com o objetivo de se apropriar das tecnologias mais recentes -, por um
certo protecionismo, via a manutenção de uma taxa de câmbio depreciada e
a exclusão de facto das empresas estrangeiras dos processos de compras
públicas.
A originalidade desse modelo se funda :
Sobre a
articulação das forças sociais sob a égide do Partido Comunista :
empreendedores dos setores públicos e privados pertencem frequentemente
ao PC ; mundo do trabalho com suas diferenciações cada vez mais fortes
entre campo e cidade, trabalhadores qualificados e não qualificados,
trabalhadores residentes e trabalhadores migrantes das zonas rurais («
mingongs ») sem permissão se beneficiam muto pouco de vantagens sociais.
Estes últimos, muito numerosos (cerca de 260 milhões), estão
concentrados nos empregos não qualificados e particularmente duros.
-
Sobre a capacidade do Estado central em manter um controle sobre os
governos das províncias e sobre a concentração política e a manutenção
de uma autonomia muito relativa face ao poder central.
- Sobre um
crescimento elevado de maneira a legitimar a manutenção de um regime
autoritário, apesar da distribuição particularmente desigual dos frutos
desse crescimento e o aumento da corrupção.
A intervenção massiva
do Estado, em geral indireta, a vulnerabilidade dos empreendedores
privados e públicos, a corrupção, a superexploração dos trabalhadores,
especialmente dos « ilegais », são particularidades desse modelo [1].
Na verdade, estamos diante de um duplo processo de acumulação
primitiva, o primeiro, no sentido de Marx com o afluxo de camponeses
pobres nas cidades, e o segundo mais complexo com a espoliação dos
poupadores por taxas de juros muito pequenas, e mesmo negativas, e a
disponibilidade de crédito a baixas taxas de juros para empresas
selecionadas, públicas e privadas.
II. Um conjunto de fatores desfavoráveis joga em favor de uma desaceleração mais pronunciada da atividade econômica
1
– As perspectivas de forte crescimento das exportações são menos
favoráveis do que já foram, ainda mais que é cada vez mais difícil
passar de uma especialização baseada na exportação de produtos com baixa
intensidade tecnológica para exportações de produtos mais sofisticados,
com maior valor agregado. Essa transição encontra dois obstáculos
dificilmente superáveis : com a globalização, é mais difícil se opor à
explosão internacional da cadeia de valor ; a ausência de controle das
novas tecnologias, especialmente aquelas ligadas à telecomunicação e à
informação (ITC), e de domínio dessas tecnologias tornam mais difíceis,
embora não impossíveis, as estratégias nacionais de crescimento das
exportações e de integração das linhas de produção.
2 – Passar de
um modelo de desenvolvimento a outro a partir da dinâmica do mercado
interno não é fácil, apesar da expansão das classes médias. Os salários
cresceram em média mais rapidamente que a produtividade do trabalho
desde 2009, mas a parte do consumo no PIB e sua contribuição para o
crescimento cresceram ainda de forma muito fraca. O aumento dos custos
do trabalho, seguido ao das receitas, com uma taxa de crescimento da
produtividade do trabalho dada, diminui a competitividade das empresas
que utilizam muita mão de obra. Além disso, a expansão do consumo pode
vir de uma diminuição da poupança. A poupança importante das famílias –
explicada por comportamentos de precaução, ligados aos custos da saúde,
da educação, às pensões insuficientes [2], às incertezas sobre o
emprego – pode diminuir se houver mecanismos de socialização mais
importantes necessitando uma alta sensível das despesas sociais do
Estado.
3 – Uma grande parte dos investimentos é dirigida para a
construção de infraestruturas importantes. Trata-se de um pré-requisito
para um crescimento durável e sua insuficiência explica as dificuldades
de manter uma taxa de crescimento consequente tanto no Brasil como na
índia. Mas na China esses investimentos estão, em grande parte, na
origem da multiplicação de créditos duvidosos, fragilizando os bancos. A
priori, poderia-se considerar que o risco financeiro e bancário ainda
não é muito elevado na China, apesar desses créditos duvidosos. O volume
de créditos em relação ao PIN alcançou 154% em 2012, uma cifra menor do
que a que apresentava os Estados Unidos na véspera da crise de 2007
(224%), ou do que a que tinha o Japão antes de suas dificuldades em 1989
(239%).
É preciso levar em conta ainda os produtos financeiros complexos, ou seja, o conjunto das « shadow banking activities »
realizadas pelas instituições financeiras, muito pouco controladas
pelas autoridades monetárias, e suas relações no sistema bancário. Essas
atividades cresceram cerca de 62% entre 2008 e 2012 e, se as levarmos
em conta, a relação do conjunto dos créditos passa de 145%, em 2008,
para 207%, em 2012, segundo dados da agência Nomura. O risco de uma
crise financeira capaz de provocar uma «aterrissagem forçada » é,
portanto, mais elevado do que parece quando levamos em conta as
atividades envolvendo esses produtos complexos.
4 – As taxas de
investimento muito elevadas (43,5% em 2010) acarretam custos adicionais
provenientes das capacidade de produção ociosas importantes. Com tais
taxas, a eficácia do capital tende a cair, sobretuso nas empresas do
Estado e no setor imobiliário fragilizado pelo estouro possível de uma
bolha especulativa.
5 – O controle dos conflitos sociais e a
manutenção da supremacia do Partido Comunista chinês é tanto mais
problemática na medida em que a opacidade das decisões governamentais é
grande e a corrupção em todos os níveis é importante.
As
consequências de uma desaceleração da atividade econômica sobre os
preços internacionais de matérias primas e os volumes de comércio já
começam a ser sentidas pelas economias emergentes latinoamericanas e por
numerosas economias africanas. Se o crescimento da China cair
fortemente, as consequências econômicas para esses países, assim como
para os países avançados, serão ainda mais importantes, o que reduziria o
crescimento das exportações da China.
Conclusão
Mais
do que uma « aterrissagem forçada », são os problemas sociais,
alimentados pela redução do crescimento, que ameaçam a manutenção do
regime político. Sem poder assegurar um processo de aumento forte de
renda e de deiminuir as desigualdades de renda, o governo busca prevenir
os problemas sociais cogitando ceder sobre algumas questões
qualitativas : reconhecimento do direito de propriedade de camponeses,
reconhecimento do fundamento de algumas reivindicações dos
trabalhadores, implementação de um sistema de seguridade social,
proteção do meio ambiente fortemente degradado, e, enfim, « luta »
contra a corrupção atingindo o pessoal político e os quadros de empresas
em todos os níveis.
Para os economistas e estudiosos da política
chinesa, o regime autoritário não se funda sobre uma legitimidade
ideológica, mas sobre sua eficácia. Lembremos então das palavras de Deng
Xiao Ping : « pouco importo a cor do gato desde que ele cace o rato ».
Com o desaquecimento do crescimento e a multiplicação dos conflitos do
trabalho, cada vez menos controlados, e das lutas dos camponeses pelos
seus direitos, é possível que no futuro seja cada vez mais difícil «
pegar o rato ».
(*) "Professor Emérito - Universidade Paris Norte e economista do CNRS". Página do autor.
Notas
[1] No
entanto, os salários aumentaram fortemente nos últimos anos na China.
Segundo a OIT (2012, p.25), a taxa de crescimento médio anual dos
salários foi de 13% entre 1997 e 2007 e de 11% entre 2008 e 2011,
enquanto a taxa de crescimento médio da produtividade foi de 9% e de
8,5% nos mesmos períodos. As desigualdades salariais aumentaram, os
salários dos trabalhadores não qualificados e mais particularmente os
dos migrantes « ilegais » cresceram menos rápido que a taxa de
crescimento da economia, sendo que a reserva de mão de obra não é
ilimitada.
[2] Lembremos que a relação de
dependência cresce fortemente por causa do aumento da expectativa de
vida e da política de filho único.
Referências bibliográficas : em
francês: Aglietta M., Bai G. (2012) : La voie chinoise, capitalisme
et empire, Odile Jacob ; Bergère M.C. (2013) : Chine, le nouveau
capitalisme d’Etat, Fayard ; Araujo H. et Cardenal J.P. (2013) : Le
siècle de la Chine : comment Pékin refait le monde à son image,
Flammarion ; Salama P (2012) : Les économies émergentes
latino-américaines, entre cigales et fourmis (six chapitres sur huit
analysent le modèle chinois en le comparant aux modèles
latino-américains), Armand Colin.
Em inglês : Borst N. (2003):
“Shadow deposit as a source of financial instability: lessons from the
american experience for China”, Peterson Institute (1-12); Walter A.,
Zhiang X. (2012): East Asian Capitalism, Diversity, Continuity and
Change, Oxford; Zhuang I., Vandenberg P. et Huang Y. (oct 2012): Growing
beyond the Low-cost Advantage, Asian Development Bank; Yifu Lin (2011):
Demystifing the chinese economy, Cambridge; Yueh L (2013): China’s
growth: the making of an economic superpower, Oxford.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
domingo, 6 de outubro de 2013
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